Coisas são apenas Coisas...

Desejo no dicionário é aspiração, vontade de ter ou obter algo.

Desejo tem uma bela origem, deriva-se do verbo desidero, que por sua vez significa deixar de ver os astros como influenciadores do destino humano tomando o destino em nossas próprias mãos.

Desejo portanto é a materialização de um prazer individual.

Quando mergulhamos um pouco mais fundo, seu significado filosófico é uma tensão em direção a um fim, uma fonte de satisfação. É uma tendência, algumas vezes consciente, outras vezes inconsciente ou até mesmo reprimida.

Não me esqueço o dia que andando pelas ruas de Praga parei para tirar uma foto na vitrine que dizia: "Um novo par de sapatos pode mudar a sua vida", eu de fato acreditava nisso… Mas será que aumentar a minha autoconfiança naquele momento seria realmente resolvida por um par de sapatos novos? Sem falso moralismo aquele par de sapatos com certeza me faria mais feliz, mas fatalmente essa alegria duraria apenas alguns minutos, e depois eu voltaria exatamente para o mesmo lugar escuro dentro de mim, até me apaixonar por um novo par de sapatos outra vez. Quantas vezes não substituímos olhar para nós mesmos, entender e cuidar dos nossos sentimentos pela ação de comprar uma "Coisa"?

É uma válvula de escape fácil, mas o que fácil vem fácil vai, e invariavelmente seguimos vazios.

A provocação aqui não é a abdicação do sentir-se bem, sentir-se bela mas como podemos transformar a nossa moda para que ela esteja a serviço da satisfação coletiva e não individual. E como mudamos da ótica individual pra coletiva? Olhando pra dentro de nós mesmo, pra gente autoconhecimento é a resposta!

Vejam que interessante, na antiguidade, antes mesmo da invenção da escrita, os seres humanos já se enfeitavam, fosse por questões sagradas, fosse por questões de identificação tribal. Enfeitar-se se tratava de oferenda e reverência. Contudo nessa época, os adornos não estavam voltados a posse e sim a troca. A troca de adornos possibilitava a aproximação das pessoas. Os objetos eram considerados símbolos e não coisas, remete portanto ao lado espiritual de cada um e não ao seu lado utilitário.

Essa é uma história linda, seu resgate parece fazer muito sentido nos dias atuais de surra de "fake" nas redes sociais onde mais privilégio e mais exclusão valem mais curtidas. Quando vamos entender que um luxo desigual não beneficia ninguém? Sabe, nas profundezas somos todos comida de peixes, não fez nenhuma diferença quem estava na primeira ou terceira classe no titanic.

E não é negar o desejo, queremos ser belas, e belas seremos por dentro e por fora quando estivermos vestidas com alma, postando nosso sorriso mais genuíno, vestindo peças que sejam  símbolos de nossa própria essência e também como forma de nos aproximarmos do outro e da natureza.

Pra gente, se conhecer é o primeiro grande passo, um convite à introspecção, a olhar pra dentro e rasgar de vez todos estes rótulos. Seja você!

"Nem gosto bom, nem mau gosto, apenas o meu gosto do qual não me envergonho e tampouco faço segredo." Friedrich Nietzsche